sexta-feira, 10 de março de 2017

A PISCINA do Lué

E a homenagem merecida aos construtores da piscina do Lué. Ali, debaixo daquela mangueira que recolhia a água numa nascente da colina em frente do quartel, se é que se pode chamar quartel, aquele casebre... Lembram-se como era à noite? Tinhamos de acender umas "mechas" colocadas em latas, o que dava alguma claridade enquanto acesas. Ainda hoje me pergunto sobre a razão de nunca termos sido ali atacados. Eu diria que foi porque "nunca abandalhamos" e nos mantivemos sempre alerta, desde o primeiro dia até ao último. Custou um pouco? Sim custou. Mas hoje agradecemos tê-lo feito.

4 comentários:

Anónimo disse...

Caros companheiros

Permitam-me que me apresente. Sou Fernando de Sousa Ribeiro, fui alferes miliciano na Companhia de Caçadores 3535, do Batalhão de Caçadores 3880, e estive aquartelado em Zemba, entre junho de 1972 e maio de 1973. A seguir, passei o resto da minha comissão na fronteira norte de Angola, nas proximidades de Maquela do Zombo.

Enquanto esteve em Zemba, a minha companhia foi vizinha (embora não houvesse comunicação direta) das companhias de Nambuangongo (a oeste), Quixico (a noroeste) e Quipedro (a norte). O quartel de Santa Eulália, onde se encontrava o brigadeiro comandante militar dos Dembos, ficava precisamente em cima da "fronteira" que separava Zemba de Nambuangongo.

No decurso de uma operação, das muitas que fiz em Zemba, aproximei-me de um destacamento situado entre Quixico e Quipedro, o destacamento do Lué. Isso aconteceu por volta de fevereiro de 1973. Vi o destacamento, claramente visto, lá de cima, do alto de um dos vários montes sobranceiros pelo lado do sul, precisamente de um local onde a UPA/FNLA espiava tudo o que se passava no destacamento. Não desci ao Lué, porque na operação não estava prevista uma tal descida. O meu objetivo era atacar uma base da guerrilha que ficava muitíssimo perto daquele local, a qual constituía um perigo enorme para o pessoal aquartelado no Lué, assim como para a picada entre Quixico e Quipedro em geral. A operação foi um êxito, a base foi destruída, espero que a ameaça tenha sido afastada, mas não era sobre isso que eu agora queria falar.

A minha dúvida, que muito gostaria de ver esclarecida, apesar de ser apenas a satisfação de uma curiosidade, é a seguinte: a que companhia pertenciam os militares que vi lá em baixo no Lué? Pertenciam à C.Caç. 3482 ou à companhia de Quipedro, que não sei se era a C.Caç. 104/72 ou a 104/73? A operação foi em fevereiro de 1973.

Peço muitas desculpas pela minha insólita intromissão e desejo a todos os antigos militares da C.Caç. 3482 as maiores felicidades.


Fernando de Sousa Ribeiro,
ex alferes miliciano da C.Caç. 3535 do B.Caç. 3880

José Ferreira Abrantes disse...

Nessa data eramos nós que estávamos no Quixico e no destacamento do Lué, ou seja a C. Caç 3482. Eu estive lá, no mínimo, por duas vezes. Foi pena não terem aparecido. Deveria haver lá uma cuca ou uma nocal fresquinha (se o frigorífico estivesse a funcionar)para partilharmos. Também fiz, provavelmente na mesma zona em que fizeste a tua operação, uma operação a que aqui no Blog chamo de operação Lué. Conseguimos entrar no acampamento ainda de noite, sem sermos detetados e o que se seguiu foi trágico. Mas não havia alternativa. Nós não tivemos baixas mas as deles foram "incontáveis". Também conto a história num livro que escrevi e que foi publicado pela Chiado Editora. O LIvro chama-se Amor e Guerra:de Coimbra a Nambuangongo. Penso que gostarás de ler. Podes encomendar na net no site da Chiado Editora ou encomendar numa Estação de Correios. Hoje tenho pena de não ter contado tudo o que aconteceu nessa operação, mas tudo o que conto aconteceu exatamente assim.
Um abraço "Camarada".
José Ferreira Abrantes

Anónimo disse...

Muito obrigado, companheiro, pela tua resposta.

Eu não sabia da existência de um destacamento no Lué. Nos mapas que usávamos nas operações não vinha nada indicado naquele local. Assim que vi o Lué lá do alto do monte, pensei que fosse Quipedro, mas logo conclui que não podia ser, porque era pequeno demais para ser o quartel de uma companhia. Nunca me ocorreu que pudesse ser um destacamento. Nos Dembos, um destacamento?! Inacreditável! Destacamentos havia noutros lados, eu próprio comandei dois na fronteira norte, mas nos Dembos era arriscado demais. Mas pelos vistos havia. Para o regime de então, a malta não passava de carne para canhão. Mais um jovem morto no Lué, menos um jovem morto no Lué, para o regime era igual ao litro.

Eu teria muito gosto em descer ao Lué, quanto mais não fosse para saber o que é que aquilo era, se não estivesse a meio de uma operação e quase, quase a atingir o objetivo. Depois de este ter sido atingido, voltámos para trás e a descida ao Lué ficou para o dia de São Nunca à tarde.

Quanto ao teu livro, fui espreitá-lo ao site da Wook. Depois de ter dado uma olhada às suas primeiras 38 páginas, que a Wook disponibiliza, resolvi comprá-lo. Acabei agora mesmo de fazer a encomenda.

Um abraço

Fernando de Sousa Ribeiro,
ex alferes miliciano da C.Caç. 3535 do B.Caç. 3880

José Ferreira Abrantes disse...

Obrigado pela compra do Livro. É uma pequena ajuda para atingir os 3 mil exemplares de vendas que possibilitam a tradução para Inglês e Espanhol. Tenho pensado escrever uma espécie de continuação que penso chamar "Os filhos da guerra" e que faz o cruzamemento dos filhos que os nossos militares por lá deixaram e as crianças que "recuperavamos" em operações. Obrigará a alguma pesquisa em Angola porque apanharia a guerra civil e Angola depois da "nossa guerra". Tenho algum material porque voltei a Angola várias vezes, já em 2000. Quando leres o Livro, diz-me se se justifica ir por aí. É que se não houver pessoas que gostem deste género de leitura, não vale a pena insistir.
Quanto ao Lué, admito que não tenha sido o destacamento o que viste. O destacamento estava praticamente num "buraco" cercado de montes. Terias de estar muito próximo para o veres, até porque em Fevereiro, penso que ainda não havia luz elétrica. A iluminação do perimetro era feita com latas de gasóleo com uma mecha que acendiamos ao anoitecer e que umas horas depois já estavam apagadas. Acontece que para além da proteção da ponte junto do quartel, também dávamos proteção às instalações da fazenda de café que existia lá, tendo nós uma secção em permanência nessas instalações, que se encontravam situadas numa colina. Admito que tenham sido as luzes da fazenda que tenhas visto.
Existe uma pessoa exatamente com o teu nome no Facebook. Ainda pensei que fosses tu, mas não. É outra pessoa com o mesmo nome. Uma vez mais obrigado pela compra do Livro e um abraço.
José F. Abrantes